
Neurociência da Dor
O cérebro pode aprender a sentir dor
Mas também pode aprender a REDUZI-LA.

Você provavelmente já percebeu como algumas coisas se tornam automáticas com o tempo.
Quando aprendemos a dirigir, no início precisamos pensar em tudo: trocar a marcha, olhar os espelhos, controlar os pedais. Depois de algum tempo, fazemos grande parte disso quase sem perceber.
O mesmo acontece quando aprendemos a tocar um instrumento, praticamos um esporte ou repetimos determinado movimento.
Isso acontece porque o cérebro muda com aquilo que fazemos repetidamente.
Essa capacidade tem um nome: neuroplasticidade.
E ela não acontece apenas quando aprendemos alguma coisa boa.
Ela também pode participar da dor.
O que é neuroplasticidade?
Neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro e o sistema nervoso têm de modificar seu funcionamento a partir das experiências que vivemos.
Nosso cérebro não é uma estrutura pronta e imutável.
As redes neurais se modificam continuamente de acordo com aquilo que fazemos, sentimos, repetimos e aprendemos.
Quando treinamos algo várias vezes, determinados caminhos neurais podem se tornar mais eficientes.
É como atravessar um terreno coberto de mato.
Na primeira vez, abrir caminho dá trabalho.
Se você passar pelo mesmo lugar todos os dias, começa a surgir uma trilha.
Quanto mais aquela trilha é utilizada, mais fácil se torna percorrê-la.
O sistema nervoso também cria “trilhas”.
E isso nos ajuda a entender algo importante sobre a dor crônica.
A dor também pode deixar uma trilha
Quando nos machucamos, sentir dor é esperado.
Ela faz parte de um sistema de proteção.
Você machuca a coluna, por exemplo, e durante algum tempo determinados movimentos doem. Naturalmente, o organismo passa a proteger aquela região.
Mas imagine que essa situação se prolongue.
Durante semanas ou meses, o sistema nervoso recebe repetidamente informações relacionadas àquela dor.
Movimento → dor.
Sentar → dor.
Abaixar → dor.
Caminhar → dor.
O cérebro começa a ficar cada vez mais eficiente em reconhecer determinadas situações como potencialmente ameaçadoras.
A trilha vai ficando mais marcada.
Em algumas pessoas, mesmo quando o tecido já melhorou ou quando a lesão encontrada nos exames não explica completamente a intensidade dos sintomas, o sistema de proteção pode continuar excessivamente sensível.
É uma das maneiras pelas quais a neuroplasticidade pode participar da dor crônica persistente.
Então o cérebro “aprende” a dor?
Podemos usar essa expressão, desde que entendamos o que ela realmente significa.
Ninguém escolhe aprender a sentir dor.
E isso não significa que a dor seja psicológica, imaginária ou “coisa da cabeça”.
A dor é real.
O que pode acontecer é uma espécie de aprendizagem involuntária do sistema nervoso.
As redes envolvidas na percepção e na modulação da dor podem mudar. O sistema pode ficar mais sensível. Determinadas respostas podem ser acionadas com maior facilidade.
É como se o organismo tivesse aprendido:
“Preciso proteger essa região.”
E continuasse fazendo isso mesmo quando o nível de proteção já não precisa ser o mesmo.
Mas é exatamente aqui que aparece a parte mais interessante da neuroplasticidade.
Se o cérebro pode aprender, ele também pode aprender diferente
A neuroplasticidade não funciona apenas em uma direção.
A mesma capacidade que permitiu ao sistema nervoso reforçar determinadas respostas permite também a construção de novos padrões.
Podemos chamar isso, de maneira simples, de “desaprender a dor”.
Mas desaprender não significa esquecer que a dor existiu.
Também não significa convencer alguém de que não deveria sentir dor.
Significa oferecer repetidamente ao sistema nervoso novas experiências, capazes de modificar a forma como ele responde.
Imagine novamente aquela trilha no meio do mato.
Não conseguimos apagá-la instantaneamente.
Mas podemos começar a percorrer outro caminho.
No início, esse caminho exige mais atenção.
Depois, repetição.
Até que uma nova trilha também se torne possível.
É por isso que movimento pode fazer parte do tratamento
Imagine alguém que sente dor lombar toda vez que se abaixa.
Depois de meses assim, apenas pensar naquele movimento pode gerar tensão e antecipação.
Agora imagine que, durante o tratamento, essa pessoa consiga se abaixar de maneira gradual, controlada e com menos dor.
Depois consiga novamente.
E novamente.
O sistema nervoso começa a receber uma informação diferente:
“Esse movimento pode ser seguro.”
Isso parece simples, mas é extremamente importante.
Recuperar movimentos, aumentar progressivamente a tolerância à carga, melhorar o sono, reduzir estados persistentes de alerta e voltar a realizar atividades abandonadas podem fornecer novas experiências ao sistema nervoso.
É assim que a neuroplasticidade começa a trabalhar a favor da recuperação.
E é aqui que apenas “tirar a dor” pode não ser suficiente
Uma massagem, uma manipulação, uma agulha ou uma intervenção de neuromodulação podem, dependendo do caso, modificar temporariamente a dor.
Isso pode ser muito útil.
Mas existe uma pergunta ainda mais importante:
O que fazemos com essa melhora?
Se conseguimos diminuir a dor e, naquele momento, recuperar um movimento que estava limitado, introduzir exercício ou permitir que o paciente realize algo que temia, estamos oferecendo ao sistema nervoso uma experiência diferente.
A redução da dor pode se transformar em uma janela para reaprender movimento e função.
Esse raciocínio muda o tratamento.
Em vez de buscar indefinidamente uma técnica capaz de “desligar” a dor, passamos a pensar em como diferentes intervenções podem criar condições para que o organismo construa respostas diferentes.
É dessa ideia que parte o Método RegulaDOR
No Método RegulaDOR, não buscamos simplesmente o lugar onde dói.
Procuramos entender o que pode estar mantendo aquela dor.
Em alguns pacientes, existe um componente mecânico importante. Em outros, uma irritação neural. Pode haver perda de mobilidade, alterações do movimento, hipersensibilidade ou participação de mecanismos relacionados à regulação do sistema nervoso.
E frequentemente encontramos mais de um desses fatores ao mesmo tempo.
Por isso, o tratamento pode combinar diferentes estratégias — como osteopatia, exercício terapêutico, acupuntura, eletroacupuntura e neuromodulação — de acordo com a avaliação de cada paciente.
Mas existe uma diferença importante:
a técnica não é o objetivo final.
Ela pode ser uma ferramenta para criar melhores condições para movimento, função e novas experiências.
Talvez sua dor tenha começado por um motivo e continue por outros
Essa é uma das ideias mais importantes quando falamos em dor crônica.
Uma lesão pode ter iniciado todo o processo.
Mas, meses ou anos depois, os fatores que mantêm a dor podem não ser exatamente os mesmos que a fizeram começar.
Por isso, continuar procurando apenas a lesão original nem sempre responde à pergunta mais importante.
Talvez seja necessário investigar também o que aconteceu com o sistema ao longo desse caminho.
A neuroplasticidade nos mostra justamente isso:
o sistema nervoso aprende com aquilo que vive repetidamente.
Ele pode aprender a proteger demais.
Pode aprender a associar determinados movimentos à ameaça.
Pode aumentar sua sensibilidade.
Mas existe outro lado dessa história.
O sistema nervoso continua capaz de aprender.
Novos movimentos.
Novas experiências.
Novas respostas.
Novas possibilidades de função.
Talvez “desaprender a dor” não signifique apagar a antiga trilha.
Significa construir uma nova trilha e percorrê-la tantas vezes até que ela se torne o caminho preferencial.
Dra. Claudia Meirelles Osteopatia • Acupuntura • Posturologia • Neuromodulação Podoposture | Método RegulaDOR
Fontes científicas
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