
Bruxismo, DTM e Dor Orofacial
Bruxismo sem desgaste dos dentes:
Por que você pode tensionar a mandíbula sem perceber

É possível ter bruxismo sem ranger os dentes e sem apresentar desgaste dentário evidente? Sim. Isso acontece porque o bruxismo não envolve apenas ranger ou apertar os dentes. Durante o dia, algumas pessoas podem manter a mandíbula tensionada, estabilizada ou deslocada para determinada posição, mesmo sem perceber e até sem que os dentes estejam encostados.
Esses comportamentos são conhecidos como bracing e thrusting mandibular e fazem parte da definição contemporânea do bruxismo em vigília.
Por isso, quando um paciente me diz:
“Mas eu não ranjo os dentes e meus dentes não estão desgastados. Como posso ter bruxismo?”
a primeira questão é entender o que a mandíbula está fazendo ao longo do dia, e não apenas procurar sinais de desgaste nos dentes.
Bruxismo não é apenas ranger os dentes
Durante muitos anos, o bruxismo ficou popularmente associado ao ato de apertar ou ranger os dentes, principalmente durante o sono.
Hoje essa compreensão é mais ampla.
O consenso internacional diferencia duas manifestações:
Bruxismo do sono: atividade dos músculos mastigatórios que acontece durante o sono e pode apresentar padrão rítmico ou não rítmico.
Bruxismo em vigília: atividade dos músculos mastigatórios enquanto estamos acordados, caracterizada por contato dentário repetitivo ou sustentado e/ou por comportamentos chamados bracing e thrusting da mandíbula.
Portanto, bruxismo do sono e bruxismo em vigília não são simplesmente o mesmo fenômeno acontecendo em horários diferentes. Eles apresentam características e mecanismos próprios.
Também é importante compreender que a presença de atividade bruxista não significa necessariamente doença. Sua importância clínica depende de frequência, intensidade, contexto, fatores individuais e possíveis consequências.
O que é clenching ou apertamento dos dentes?
Clenching significa apertamento ou cerramento dos dentes.
Nesse comportamento existe contato dentário associado à produção de força pelos músculos mastigatórios.
É o comportamento que mais se aproxima da ideia popular de:
“Eu fico apertando os dentes.”
Algumas pessoas percebem que fazem isso enquanto trabalham, dirigem, estudam ou enfrentam situações de maior tensão.
Outras não percebem.
Mas existe uma diferença importante:
nem toda atividade muscular mandibular envolve apertar os dentes.
É aí que entra o bracing.
O que é bracing mandibular?
Bracing mandibular é a manutenção da mandíbula em uma posição rígida, tensionada ou estabilizada, sem que necessariamente exista contato entre os dentes.
Em outras palavras:
os dentes podem estar separados e a musculatura mandibular continuar trabalhando.
Essa informação é particularmente importante para quem apresenta sintomas na região da mandíbula, mas afirma:
“Eu não aperto os dentes.”
Talvez realmente não aperte.
A pessoa pode, entretanto, passar determinados períodos mantendo a mandíbula “segurada” ou excessivamente estabilizada sem perceber.
O sistema nervoso coordena músculos como masseter, temporal, pterigóideos e outros componentes do sistema mandibular para controlar continuamente sua posição.
O bracing, portanto, não deve ser entendido simplesmente como “um masseter contraído”.
Ele representa um comportamento motor mandibular.
Por que posso tensionar a mandíbula sem perceber?
Grande parte do controle da mandíbula acontece automaticamente.
O cérebro recebe continuamente informações provenientes dos músculos, dentes, periodonto, articulação temporomandibular (ATM) e outros tecidos. Essas informações são processadas pelo sistema nervoso e utilizadas para ajustar posição, movimento e força mandibular.
Determinados contextos podem estar associados a mudanças nesse comportamento motor.
Entre os fatores que merecem ser investigados estão:
- períodos prolongados de concentração;
- elevada demanda cognitiva;
- estresse e fatores emocionais;
- dor orofacial ou DTM;
- hábitos motores adquiridos;
- determinadas tarefas profissionais;
- comportamento postural durante algumas atividades;
- uso prolongado de computador ou celular;
- percepção corporal reduzida do comportamento mandibular.
Isso não significa que estresse cause automaticamente bruxismo, nem que trabalhar no computador necessariamente provoque bracing.
A relação é individual e multifatorial.
Uma possibilidade é que, em determinadas pessoas, estados de maior demanda sejam acompanhados por uma estratégia motora de maior estabilização.
Algumas elevam os ombros.
Outras prendem excessivamente objetos nas mãos.
Outras modificam a respiração.
E algumas podem aumentar a estabilização da mandíbula.
O que é thrusting mandibular?
Existe outro comportamento ainda menos conhecido: o thrusting.
Thrusting mandibular significa manter ou deslocar a mandíbula de maneira sustentada em determinada direção, por exemplo, discretamente para frente ou para um dos lados.
Novamente, isso pode acontecer sem apertamento dentário importante.
Músculos como os pterigóideos participam do complexo controle necessário para posicionar e movimentar a mandíbula.
Portanto, uma pessoa pode apresentar atividade mandibular relevante mesmo sem ranger ou apertar os dentes.
Clenching, bracing e thrusting: qual é a diferença?
De maneira simplificada:
Clenching: os dentes são apertados ou cerrados.
Bracing: a mandíbula permanece tensionada ou rigidamente estabilizada, mesmo que os dentes estejam separados.
Thrusting: a mandíbula é mantida ou deslocada para frente ou para um dos lados.
Essa distinção ajuda a compreender por que perguntar apenas:
“Você aperta os dentes?”
pode não ser suficiente para investigar o bruxismo em vigília.
Por que o bracing pode acontecer durante períodos de concentração?
Essa é uma área particularmente interessante da neurofisiologia.
Quando realizamos uma tarefa que exige atenção, precisão ou esforço mental, o sistema nervoso pode modificar diferentes aspectos do comportamento motor.
Em algumas pessoas, isso pode incluir maior estabilização mandibular.
Se esse comportamento se repete frequentemente em um mesmo contexto, por exemplo, durante horas de trabalho diante do computador, ele pode tornar-se progressivamente automático.
A pessoa deixa de perceber que está fazendo força.
É semelhante a alguém que mantém os ombros elevados durante vários minutos e somente percebe quando recebe a instrução:
“Relaxe os ombros.”
Ao relaxar, reconhece quanto esforço estava produzindo antes.
Com a mandíbula pode acontecer algo semelhante.
Como saber se tensiono a mandíbula durante o dia?
Em vez de tentar lembrar no final do dia, experimente observar sua mandíbula em diferentes momentos.
Pergunte a si mesmo:
Meus dentes estão encostados neste momento?
Minha mandíbula está realmente relaxada?
Estou fazendo algum esforço para mantê-la nessa posição?
Estou projetando a mandíbula para frente?
Estou mantendo-a desviada para algum dos lados?
Isso acontece principalmente quando estou trabalhando ou concentrado?
Talvez você descubra um comportamento que nunca havia percebido.
O que é EMA e como ele pode ajudar a identificar o bruxismo em vigília?
Uma estratégia utilizada em pesquisas sobre bruxismo em vigília é chamada Ecological Momentary Assessment (EMA) ou Avaliação Ecológica Momentânea.
Em vez de perguntar ao paciente no final do dia o que aconteceu, ele recebe lembretes em diferentes momentos para observar o que sua mandíbula está fazendo naquele instante.
Pode registrar:
- mandíbula relaxada;
- dentes apenas encostados;
- apertamento dentário;
- bracing;
- thrusting.
Ao repetir esse processo durante vários dias, podem surgir padrões.
Por exemplo:
trabalhando → bracing frequente
dirigindo → contato dentário
reunião estressante → clenching
momentos de descanso → mandíbula relaxada
O objetivo não é apenas contar quantas vezes determinado comportamento aparece, mas compreender em quais contextos ele ocorre.
Bruxismo pode existir sem desgaste dos dentes?
Sim. A ausência de desgaste dentário não exclui atividade bruxista.
Isso acontece por diferentes razões.
Primeiro, nem toda atividade bruxista produz atrito entre os dentes.
No bracing, por exemplo, os dentes podem permanecer separados.
No thrusting, também não é obrigatório haver atrito dentário significativo.
Além disso, o desgaste dos dentes é multifatorial e pode refletir diferentes processos acumulados ao longo do tempo.
Por isso, nem a presença nem a ausência de desgaste dentário deve ser utilizada isoladamente para determinar o comportamento atual da mandíbula.
Bruxismo pode causar dor na mandíbula?
Pode estar associado a sintomas musculoesqueléticos em algumas pessoas, mas não devemos assumir automaticamente que o bruxismo seja a causa da dor.
Atividade muscular frequente ou sustentada pode contribuir para fadiga e desconforto em indivíduos suscetíveis.
Por outro lado, a própria presença de dor pode modificar o controle motor da mandíbula e favorecer estratégias de estabilização.
Portanto, a relação pode ser bidirecional:
atividade mandibular → possível sobrecarga e dor
mas também:
dor → alteração do comportamento motor mandibular
Em algumas situações, esses processos podem coexistir.
Bruxismo pode estar relacionado à DTM?
Bruxismo e disfunção temporomandibular (DTM) podem coexistir, mas são conceitos diferentes.
DTM engloba diferentes condições relacionadas à articulação temporomandibular, músculos mastigatórios e estruturas associadas.
Já o bruxismo descreve uma atividade muscular mandibular.
Portanto:
ter bruxismo não significa necessariamente ter DTM, e ter DTM não significa necessariamente que o bruxismo seja sua causa.
Essa diferenciação evita diagnósticos excessivamente simplificados.
Bruxismo pode estar relacionado à dor cervical e à cefaleia?
Sintomas mandibulares, DTM, cefaleias e sintomas cervicais podem coexistir.
Isso não significa que exista uma cadeia simples na qual:
mandíbula tensa → pescoço tenso → dor cervical.
Mandíbula e região craniocervical participam de sistemas sensório-motores relacionados, e a dor também pode modificar estratégias de movimento e estabilização.
Por isso, quando sintomas mandibulares aparecem associados a cefaleia ou cervicalgia, a avaliação deve procurar compreender o conjunto do problema, e não apenas o local onde existe maior tensão muscular.
Estresse causa bruxismo?
A relação é mais complexa.
Fatores psicossociais apresentam associação especialmente com o bruxismo em vigília, mas isso não significa que exista uma relação obrigatória de causa e efeito.
O mais adequado é investigar como estresse, atenção, comportamento motor, dor, sono e contexto cotidiano interagem em cada pessoa.
Então, como avaliar corretamente?
A pergunta não deveria ser apenas:
“Você range os dentes?”
Uma avaliação mais completa pode investigar:
O que sua mandíbula faz?
Isso acontece durante o sono ou enquanto você está acordado?
Existe clenching, bracing ou thrusting?
Em quais situações esses comportamentos aparecem?
Há dor, fadiga, cefaleia ou sintomas relacionados à ATM?
Como está o sono?
Existem fatores emocionais ou períodos de elevada demanda cognitiva associados?
O comportamento está realmente relacionado aos sintomas apresentados?
Essa abordagem evita transformar todo paciente com tensão mandibular em “bruxista” e, ao mesmo tempo, evita deixar de reconhecer atividades mandibulares que não produzem desgaste dentário.
A pergunta talvez não seja “Você range os dentes?”
Talvez uma pergunta mais interessante seja:
“O que sua mandíbula está fazendo quando você não está prestando atenção nela?”
A mandíbula é controlada por um sofisticado sistema sensório-motor e seu comportamento pode variar de acordo com tarefa, atenção, dor, estado emocional e contexto.
Por isso, algumas pessoas podem apresentar atividade muscular mandibular significativa sem ranger os dentes, sem perceber que fazem força e até sem apresentar desgaste dentário evidente.
Compreender esses comportamentos é um passo importante para uma avaliação mais precisa da dor orofacial, das disfunções temporomandibulares e de sintomas associados.
Perguntas frequentes
Posso ter bruxismo mesmo sem ranger os dentes?
Sim. O bruxismo em vigília pode envolver contato dentário sustentado ou repetitivo, bracing e thrusting. Nem todas essas atividades envolvem ranger os dentes.
Posso tensionar a mandíbula mesmo com os dentes separados?
Sim. No bracing mandibular, a mandíbula pode permanecer rigidamente estabilizada ou tensionada sem necessidade de contato dentário.
Não tenho desgaste nos dentes. Isso exclui bruxismo?
Não. A ausência de desgaste dentário não exclui atividade bruxista, especialmente comportamentos mandibulares que não produzem atrito significativo entre os dentes.
Bruxismo acontece somente durante o sono?
Não. Existem bruxismo do sono e bruxismo em vigília, considerados manifestações distintas.
Apertamento dos dentes e bracing são a mesma coisa?
Não. No apertamento (clenching) existe contato dentário com força. No bracing, a mandíbula pode permanecer tensionada mesmo com os dentes separados.
Como perceber se estou fazendo bracing?
Observar a mandíbula repetidamente ao longo do dia pode ajudar. Pergunte: “Minha mandíbula está realmente relaxada ou estou fazendo algum esforço para mantê-la nesta posição?”
Como é feito o tratamento do bruxismo em vigília?
O tratamento depende dos fatores envolvidos e dos sintomas de cada pessoa. Pode incluir educação e consciência do comportamento mandibular, Osteopatia, Acupuntura e técnicas de Neuromodulação, além de estratégias para reduzir clenching, bracing e thrusting ao longo do dia. Quando necessário, a abordagem pode ser realizada em conjunto com o acompanhamento odontológico.
Referências científicas
Lobbezoo F, Ahlberg J, Raphael KG, et al. International consensus on the assessment of bruxism: Report of a work in progress. Journal of Oral Rehabilitation. 2018.
Lobbezoo F, et al. Updating the Bruxism Definitions: Report of an International Consensus Meeting. Consenso internacional atualizado sobre definições e avaliação do bruxismo.
Literatura sobre Ecological Momentary Assessment (EMA) aplicada ao bruxismo em vigília e avaliação dos comportamentos mandibulares no ambiente cotidiano.
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